Qual a origem de esquerda e direita?

Adora um textão político, mas ainda não sabe a origem dos termos esquerda e direita? Então senta que lá vem história...


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Ah, a rede social é legal, né? A gente pode postar textão, posar de engajado e ganhar altos likes, mesmo sem ter a mínima ideia do que está falando. O combo Ctrl C → Ctrl V nunca falha, dá um movimento na timeline, e com sorte, gera uma treta muito horrorshow.

Afinal, como diria o poeta: futebol, política e religião, não se discute. No paraíso dos egos, onde todos querem falar mais que ouvir, ensinar mais que aprender, verdade cada vez mais óbvia.

A não ser que você esteja no outro time, dos que odeiam textão. Viu tijolão¹, já começa a sentir urticária nos olhos. Se for em CAPS, mais ainda.

Entendemos sua dor, amigo e amiga.

¹ Tijolão, tijolada ou tijolaço é aquele bloco furibundo de texto, sem pausa pra vírgula, quebra de linha, nada. Parece que o cidadão digitou assim.

Mas se você gosta de politizar a rede mesmo assim, melhor saber pelo menos o básico, certo? Vai que a parada fica séria, com uma acareação na escola? Aí tem que mostrar seus dotes sem ajuda do Senhor de Todos os Conhecimentos™, aquele.

Um bom exemplo é: você tem noção do que é espectro político? Não, não é o fantasma do Ulysses Guimarães.

Pra facilitar: por que diachos o pessoal fala “fulano é direitista“, “sicrano é esquerdista“, “a direitalha é assim mesmo”, “esses esquerdosos não tomam jeito”, etc?

É onde entra um capítulo interessantíssimo da humanidade.

O povo não é bobo…?

Luís XVI: apesar de amar a França e ter boas intenções, foi transformado (junto com a esposa, Maria Antonieta) em símbolo do fracasso financeiro, gastos abusivos e exploração dos pobres.

Era uma vez a França. Não essa moderna de Torre Eiffel, Zidane e perfumes, mas a do século XVIII, com a maior população do mundo — quase 25 milhões de pessoas.

Eles viviam em monarquia absolutista há séculos. Isso quer dizer que o rei Luís XVI mandava. Economia, justiça, religião: tudo tinha a última palavra do monarca, que se via como o “escolhido divino” para comandar a nação. Era seu “direito natural”, a missão dada pelo Criador ao colocar seus ancestrais no mesmo posto.

Assim as coisas eram, e a vida seguia.

Havia uma divisão normativa entre “povão” e classes altas da sociedade; uma estratificação social. Eram os chamados Três Estados, veja só:

Acima de todos, estava o clero, religiosos divididos entre alto clero (bispos, arcebispos e outros VIPs, saídos da nobreza) e baixo clero (sacerdotes da “ralé”, como padres). Eles tinham vantagens como o não pagamento de impostos e direito de coletar dízimo.

Logo abaixo, a nobreza. Pra ser “nobre”, você era 1. alguém vivendo no Palácio de Versalhes, como cortesãos, nobres de sangue, funcionários, etc 2. um nobre das províncias, como senhores feudais que moravam no interior, ou 3. da nobreza de toga, os ricos que compravam títulos de nobreza, cargos políticos e administrativos.

Por último, o chamado terceiro estado. Era o grupo mais diverso, com a alta burguesia (grandes comerciantes e banqueiros), média e baixa burguesias (profissionais liberais, artesãos e comerciantes) e os sans-culottes, pobres como operários, camponeses, desempregados e marginalizados em geral.

Não muito diferente de hoje, percebe?

Mas continuando: adivinhe qual era o único grupo que pagava impostos? O terceiro estado. Além de carregar a parte de cima da pirâmide social nas costas, como mulas, o povo também não podia exercer cargos públicos e nem recebia pensões. Quem primeiro apontou a gravidade disso foi Jacques Necker, suíço que ocupava um cargo similar ao de ministro da economia.

Que comam brioches

Caricatura da época retrata a sociedade francesa: clero e nobreza montados nas costas do povo. Nos bolsos, as regalias como pensões e a ostentação. Na legenda principal, algo como “Devemos esperar que um dia essa brincadeira termine”.

O momento era péssimo. Inundações tinham causado perdas na agricultura e o preço dos alimentos subia sem parar. A indústria fechava vagas, ingleses tinham uma economia mais competitiva. O rombo nas contas era enorme, aumentado por gastos e empréstimos feitos para apoiar a independência dos Estados Unidos.

Na miséria, pobres viam de longe a nobreza no luxo do palácio — luxo pago por eles. A rainha Maria Antonieta era acusada por opositores de esbanjar dinheiro público em festas, roupas caríssimas, banquetes e até orgias. Fatos e calúnias se misturavam, para inflamar a sociedade. É mais ou menos quando lhe foi atribuída a frase “Se não tem pão, que comam brioches”, o que seria o cúmulo da alienação diante da penúria da França.

Necker tentou uma grande reforma, com impostos para todos, mas foi rechaçado pelo parlamento (órgão jurídico, que de forma geral, defendia os interesses dos nobres). Acabou afastado em favor de Charles-Alexandre de Calonne.

Calonne viu o tamanho da encrenca e tentou uma reforma com taxação de nobres e clérigos, redução de gastos do governo e conversão da corveia (trabalho prestado aos senhores feudais) numa taxa em dinheiro. De novo, foi repelido pelo parlamento. Mesmo assim, convenceu o rei a convocar a Assembleia dos Notáveis, em 1787 — uma consulta com representantes de clero e nobreza. Queria tentar demonstrar o tamanho do buraco (sem duplo sentido, por favor).

Uma das últimas soluções seria um imposto sobre terras de todos, independente da riqueza. A resposta foi enérgica na direção contrária: nobres e clero não contribuiriam de jeito nenhum. Calonne caiu em desgraça e foi exilado. Em seu lugar, Étienne Charles de Loménie de Brienne fez sugestões não muito úteis em salvar o caixa real e também foi afastado. O rei acabou dissolvendo a assembleia e convocando Estados Gerais para 1789, onde discutiriam soluções para a crise.

Para tomar qualquer decisão, os três estados teriam que votar. O povo formava uns 80% da população, mas a contagem era por estado. Clero e nobreza se uniam e assim, venciam todas as votações na proteção de suas regalias. Nesse formato, o resultado estava definido antes mesmo de começar.

Revolução

O rei bem que tentou, mas não conseguiu impedir a Assembleia Nacional de continuar — primeiro na sala de jogo, onde aconteceu o juramento.

Na Assembleia dos Estados Gerais, o destino da votação era barbada: um voto para cada estado, clero e nobreza alinhados, e nada de impostos para a elite. Mas o terceiro estado começou uma campanha de “um homem, um voto”.

Nobreza e clero pularam fora, pois isso equilibraria a disputa. Ânimos ficaram exaltados; o objetivo original da assembleia, que era discutir as contas, nem começava por causa da questão dos votos. O rei decide (lembra, absolutismo?) que a votação seria como sempre foi. O terceiro estado se rebela, declarando-se Assembleia Nacional Constituinte — propunham uma monarquia constitucional, limitando os poderes reais. Convidaram simpatizantes dos outros estados para a iniciativa, e logo o número de adeptos era maior que os demais juntos.

Tentando contê-los, Luís XVI ordena que a sala de Versalhes onde ocorria a assembleia fosse trancada com a desculpa esfarrapada de uma reforma. Ao dar de cara com a porta, os deputados se reúnem em outra dependência, o salão de péla (um tipo de tênis antigo), onde juram prosseguir até estabelecer uma Constituição. O salão também é bloqueado dois dias depois e eles passam a se reunir na hoje Catedral de Versalhes.

O rei foi forçado, enfim, a aceitar o movimento como válido em 09/07/1789, mas com a condição da participação dos demais estados.

Mas e a esquerda e direita?

Calma aê, jovem.

Cinco dias depois, um dos maiores eventos da Revolução Francesa. A população, a essa altura muito inflamada por tudo que acontecia, se reúne, invade e acaba com a Bastilha, prisão onde a monarquia despejou inimigos ao longo da história.

Não era só uma prisão, mas um símbolo de poder — do poder real, que levava uma senhora pancada: não havia mais a figura “intocável”, ou de “direito divino” de governar.

Durante a convocação dos Estados Gerais e na Assembleia Constituinte, cada grupo ficava em seu lado.

Na assembleia, representantes se sentavam em pontos distintos, indicando suas posições não só no local, como políticas:

No lado direito ficavam os girondinos, grupo dito “moderado”, representando principalmente a alta burguesia. Queriam o fim do absolutismo e início de uma monarquia constitucional. Eram contra o direito ao voto dos mais pobres, e defendiam, entre outras coisas, maior liberdade econômica. Preferiam uma solução pacífica, de mudanças não muito drásticas. Quando revelados documentos secretos mostrando que Luís XVI tentara sabotar a Constituinte com mentiras e subornos, o ideal se tornou insustentável. O rei seria julgado e guilhotinado pouco depois pelos jacobinos.

No lado esquerdo ficavam os jacobinos, cuja base era a burguesia dos comerciantes e profissionais liberais. Queriam o fim do absolutismo e implantação de uma república, e defendiam o auxílio aos mais pobres, controle de preços de itens de primeira necessidade, imposto conforme a renda e acesso irrestrito à educação. Ao contrário da posição moderada dos girondinos, defendiam (principalmente com Maximilien de Robespierre e o jornalista Jean-Paul Marat) que violência podia ser empregada, se necessário, para uma mudança total de paradigma.

Ao centro do salão, ficava a Planície, um grupo misto, com abades, nobres e burgueses, de anseios diferentes. Ora pendiam para os girondinos, ora para os jacobinos. Por não tomar um lado com convicção, eram chamados por nomes depreciativos como Pântano e até Sapos do Pântano.

Havia outras divisões, como a Montanha (jacobinos na parte alta da sala), mas a divisão esquerda-direita de jacobinos e girondinos serve até hoje para ideologias na política: conservadores e defensores das liberdades individuais na direita, e os propensos a mudanças drásticas e intervenção do estado na esquerda. Pelo menos essa é a imagem padrão, que nem sempre corresponde à realidade.

Como termina a história?

A Assembleia Constituinte continuou. Foram abolidas vantagens como isenções de imposto e direito de compra de títulos de nobreza. A revolta se alastrava pelo país, com castelos incendiados, saques aos senhores feudais e igrejas. Luís XVI é preso quando tentava fugir, num plano de retomar o poder. São declarados os Direitos Universais do Homem e do Cidadão, documento que colocava todas as pessoas no mesmo patamar.

Robespierre: um dos personagens mais contestados da história, era ao mesmo tempo o “Incorruptível” na busca por igualdade, e um dos responsáveis pelo “Terror” que matou milhares na guilhotina.

Os jacobinos ganharam força. Com Robespierre, a França tomou o rumo de esquerda, com leis sobre direito ao voto, educação gratuita, restrição de propriedade privada e libertação de escravos. Mas também viu a execução de milhares de pessoas através do “Comitê de Salvação Pública” e seus julgamentos sumários — segundo o próprio, para uma “justiça rápida, severa e inflexível“. O “Incorruptível” revelou-se um ditador implacável, disposto a, em sua visão, criar uma república de virtude, mesmo que o meio fosse o radicalismo.

Foi o período de Terror, aguçado por eventos como o assassinato de Jean-Paul Marat, um dos mais proeminentes e radicais nomes jacobinos por uma jovem simpatizante dos girondinos, Charlotte Corday (que pra variar, também perdeu a cabeça por isso). Muitos foram para a guilhotina, até aliados moderados como Danton, que não apoiava violência contra o clero e não recomendou a execução de Maria Antonieta. Não foi ouvido, e tal como ele um ano depois, a ex-rainha foi guilhotinada em 1793.

O medo era tão grande entre opositores e mesmo aliados, que foi inevitável uma trama pela retomada das rédeas da França. A alta burguesia pagou na mesma moeda, tirando Robespierre do poder e… mandando-o para a guilhotina. Em dois dias, dezenas de seus aliados foram decapitados, todos sem julgamento. Foi criado o Diretório, regime com cinco membros na função executiva do país. Isso supostamente manteria as coisas mais calmas, sem figuras ganhando poder demais.

Foi como pular da frigideira para o fogo. Depois do Terror de Robespierre, veio o “Terror Branco”, com centenas de execuções e perseguições contra jacobinos e republicanos em geral. Leis populares foram revogadas, e com a nova Constituição de 1795, limitaram o direito ao voto a quem tivesse certa renda, além de omitir direitos básicos que a revolução buscara como educação e trabalho. Segundo o relator da carta, Boissy d’Anglas, ela estava centrada em “garantir a propriedade do rico, a existência do pobre, o usufruto do industrial e a segurança de todos“.

Era o fim de qualquer participação das classes mais baixas na pós-revolução. Em 1796, a última tentativa de jacobinos em retomar o poder, a Conspiração dos Iguais, foi esmagada (movimento que exigia igualdade entre todos os homens, com ideais similares aos do futuro comunismo).

Curiosamente, girondinos não ocuparam a direita da assembleia nesse fase, mas a área central, com realistas à direita, e os poucos jacobinos que escaparam da guilhotina à esquerda.

O Diretório durou poucos anos. Sob intensa oposição, logo sofreram um golpe e a França ficou nas mãos de Napoleão Bonaparte. Mas isso é outra história…

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