Relações consanguíneas: a triste história de Carlos II, O Enfeitiçado


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Uniões consanguíneas e incesto são parte da “elite” dos tabus. Além de condenado em quase todas as culturas e religiões, sexo entre parentes é até crime em vários países, como Canadá, Alemanha e Grécia. E mesmo onde não chega a ser caracterizado como crime (como no Brasil), a repercussão pública de casos conhecidos varia entre choque, asco e espanto.

Nos distantes quinhões, em comunidades isoladas, não é raro homens casados com múltiplas mulheres, incluindo irmãs e primas. Também não são raros casamentos entre primos, irmãos e até pai e filha — e mais raro, mas com casos registrados, mãe e filho.

Em certos círculos, porém, isso tem sido mais comum do que se imagina. Geração após geração, dinastias reais mantiveram tudo em família, evitando a “contaminação” da linha nobre e acumulando riqueza e poder. Casamentos eram só ferramentas políticas e não uniões por afinidade, embora uma coisa não necessariamente excluísse outra.

Mas (hoje, pelo menos) quase todo mundo sabe que o resultado, do ponto de vista genético, pode ser desastroso. Filhos de parentes têm maior chance de receber genes recessivos, que podem causar deformações e doenças, em dobro. Se nas gerações seguintes o portador tiver filhos com alguém fora do seu “círculo sanguíneo”, aumenta a variedade genética e o gene pode voltar a ser recessivo nos filhos.

Caso os cruzamentos consanguíneos continuem, a herança segue.

E faz muito tempo

Milênios atrás, um certo adolescente imperou pouco tempo no Egito. Morto jovem, sem herdeiros e fruto de relação entre irmãos, o jovem Tuntancâmon pode ser uma das primeiras demonstrações de como incesto na realeza é antiquíssimo.

A dinastia ptolomaica, também do Egito — mesma da famosa Cleópatra, a Cleópatra VII — foi afunilada a tal ponto por relações entre parentes que, perto do fim, quase todos eram descendentes de um único casal.

Era hábito que irmãos e primos se casassem: a irmã de Cleópatra, Berenice IV, quando governou o Egito (depois de usurpar o trono do pai, e possivelmente mandar matar a outra irmã, Cleópatra VI), foi obrigada a se casar duas vezes, sendo a primeira com o primo Seleuco Cibiosates (que também mandou matar).

Para ter mais controle político, Cleópatra foi casada com o irmão Ptolomeu XIV. E como mandava a “tradição”, teria ordenado seu assassinato mais tarde para colocar no governo seu filho com o general romano Júlio César, Cesarião.

Ou seja: quando se tratava de poder, valia tudo.

O rosto recriado de Tutancâmon: óbvias deformações, associadas aos possíveis pais que eram irmãos, levantou a teoria de que sofria consequências do estreitamento genético.

Séculos mais tarde, em Portugal, Maria I se casou com o tio, Pedro de Bragança. Tiveram sete filhos, e um deles, José, de certa forma seguiu os passos da mãe, ao se casar com a tia materna, Maria Francisca Benedita de Bragança. Mas ele morreu aos 27 anos, de varíola, sem terem filhos.

Episódios assim permeiam a realeza ao longo da história…

Pra resumir: o jogo de interesse tornava relações entre membros da família comum nas casas reais. Claro que havia consequências, como filhos com morte prematura.

E num caso em especial, causou o fim de uma delas.

O Enfeitiçado

A Casa dos Habsburgo foi enorme na Europa. Ocupada entre 1516 e 1700 na Espanha, a origem é bem mais antiga: a linha pode ter começado em Guntram o Rico, um conde da Brisgóvia que viveu entre 920 e 973. Foi seu neto, Radbot, que construiu o Castelo Habsburgo, na Suíça, morada da família por 7 gerações. A origem do nome não é documentada, mas parece ter vindo do alemão habicht, uma ave de rapina que teria sido vista pousada no castelo, daí o Habichtsburg (Castelo da Águia).

O primeiro a adotar o nome para si foi Otto II, que se intitulou “Conde do Habsburgo”. Aos poucos, a influência da família foi crescendo, até a escolha do Conde Rodolfo de Habsburgo pelos duques do Sacro Império Romano Germânico como Rei dos Romanos.

Assim, Rodolfo I da Germânia teve o primeiro título real da família, em 1273. Os Habsburgo continuariam expandindo influência e poder numa série de relações pelo continente, incluindo Espanha, Croácia, Portugal, Hungria e vários outros domínios. Muitos casamentos dinásticos, consanguíneos, contribuíram.

E quem pagou a conta foi Carlos II da Espanha. Filho de Filipe IV com a própria sobrinha, Mariana de Áustria (que havia sido noiva do filho do primeiro casamento de Filipe IV, e portanto seu primo, Baltasar Carlos), Carlos II nasceu com deficiências físicas e mentais. Morreu no início do século XVIII, sem filhos nem parentes para assumir o trono.

A família vinha de uma sequência insana de consanguinidade. Mariana, por exemplo, era filha de Maria Ana de Espanha e Fernando III (primos), enquanto Fernando III havia sido casado com Margarida de Áustria, também primos. Como Filipe IV e Mariana eram tio e sobrinha, Carlos II era primo da própria mãe e sobrinho-neto do pai 😱.

A tradição de casamentos arranjados chegou ao extremo com os problemas genéticos de Carlos II. Com ligeiro retardo mental, só aprendeu a falar aos 4 anos, e a andar aos 8. Sofria de crises epilépticas e tinha um caso extremo de prognatismo, também conhecido como Maxilar de Habsburgo. Sua língua também era desproporcional — o quadro era tão grave que o impedia até de mastigar e falar de forma apropriada.

Estudos recentes…

concluíram que os pais de Carlos II teriam chegado a um coeficiente de parentesco muito próximo da relação pais/filhos, ou entre irmãos.

Entre 1527 e 1661, quando Filipe II (o segundo dos Habsburgo da Espanha) e Carlos II (o último) nasceram, a família real teve 34 nascimentos. Destes, 10 (29.4%) resultaram em crianças mortas com menos de 1 ano, e 17 (50%), antes dos 10. Números acima da mortalidade esperada em vilarejos da época, nas quais classes sociais eram variadas mas a mortalidade infantil não ultrapassava 20%.

Sem falar em deformações acentuadas a cada geração, algo perceptível nas pinturas da realeza: praticamente todos tinham rostos com proporções fora do padrão. O prognatismo seria herança da família real da Polônia, e o primeiro com a característica nos Habsburgo foi Maximiliano I, do Sacro Império Romano-Germânico. A falta de variedade genética só fez o problema piorar.

Acompanhe a evolução:

  • Maximiliano I teve filho com a prima materna, Maria de Borgonha.
  • Seu filho Filipe I teve filho com Joana de Castela, que não era parente, mas sofreria de algum distúrbio mental (há controvérsia se era depressão ou algum grau de esquizofrenia).
  • O neto Carlos I teve filho com a prima, Isabel de Portugal.
  • O bisneto Filipe II teve filho com a sobrinha, Ana da Áustria.
  • O trineto Filipe III teve filho com a prima, Margarida de Áustria.
  • O tetraneto Filipe IV se casou com a sobrinha, Mariana de Áustria.

Todos tinham, assim como outros membros dos Habsburgo, traços faciais parecidos. Cedo ou tarde, a genética cobraria, e Carlos II ficou na mesa pra “fechar a conta”.

Conta muito alta

Temendo pela saúde frágil do pequeno Carlos, único filho sobrevivente de Filipe IV, seus tutores permitiam que levasse uma vida indulgente. Ia à escola quando queria, não praticava atividades esperadas para sua posição, e sequer cuidava da própria higiene. Seu físico era raquítico, não parecia apto a quase nada. A única atividade que apreciava eram caçadas, embora a qualidade como caçador fosse duvidosa.

Carlos II estava fadado a ser Rei da Espanha em 1665, quando o pai morreu. Como tinha 3 anos, a mãe seria a regente até que ele atingisse idade mínima para governar, 14. Mas ele não tinha condições mentais de assumir o reino de fato, e ela seguiu como regente, dando ao favorito Fernando de Valenzuela um título de grandeza — para ira de outro nobres.

No ano seguinte, um golpe afastou Mariana para Madri, enquanto Valenzuela foi exilado. O meio-irmão de Carlos II, Don Juan José (filho bastardo de Filipe IV com a atriz de teatro María Calderón), estabeleceu-se como primeiro-ministro. Como único filho legítimo na linha real, era imperativo que Carlos II tivesse filhos. Don Juan tratou de arranjar, então, um casamento com Maria Luísa de Orleans — sobrinha de Luís XIV da França, o arranjo visava melhorar relações entre os países.

Mas Maria Luísa, com 16 anos, não desejava o casamento, chegando a atirar-se aos pés do tio, implorando que desistisse do acordo. Não adiantou: em duas cerimônias em 1679, ela se casou com Carlos II. Com a morte de Don Juan, em setembro, tornou-se rainha consorte, com o retorno de Mariana como regente.

Maria Luísa se adaptou à Espanha. Entendia-se bem com Mariana e o marido, principalmente porque não demonstrava tanto interesse nas questões políticas, ao contrário da sogra. Carlos II apaixonou-se totalmente pela francesa.

Maria Luísa de Orleans, primeira esposa de Carlos II

Em 1680, Carlos II presidiu um dos maiores “autos-da-fé” da Inquisição Espanhola. No evento, foram julgados 120 prisioneiros acusados por heresias, dos quais 21 foram condenados e queimados em estacas. Mas um de seus únicos atos independentes como monarca (sem influência de terceiros) foi quando em 1700, decretou a criação de um conselho para investigar a Inquisição.

O resultado seria tão danoso à Inquisição, que o Grande Inquisidor convenceu Carlos a jogar o documento no fogo por suas “acusações terríveis“. Nenhum cópia foi encontrada mais tarde, e a Inquisição seguiu até 1834.

Final infeliz

Maria Ana de Neuburgo, a segunda esposa.

Após quase dez anos de casamento, e nenhum filho, crescia a preocupação da coroa espanhola. Alvo de piadas e acusada de ser infértil, Maria Luísa desejava tanto quanto o marido a maternidade. Em Madri, circulava um poema popular com os termos “parir” e “Paris”, dizendo que se ela parisse, estaria a parir toda a Espanha, senão, voltaria para Paris. Uma testemunha que os ajudou em orações disse que “se portavam com tamanha fé, que até as pedras se moveriam para pedir a Deus a desejada sucessão“.

Mas os anos iam, tal como a fé de Luísa. Distrações como roupas luxuosas ou passeios a cavalo não aplacavam sua tristeza. Ela se tornara infeliz, sem esperança de gerar um herdeiro. Faleceu subitamente em 1689, aos 26 anos, com fortes dores abdominais, por uma apendicite ou intoxicação alimentar, embora tenha sido ventilada a possibilidade de envenenamento. Em seu leito de morte, teria se despedido do marido dizendo: “Muitas mulheres ainda pode ter Vossa Majestade, mas nenhuma que o queira mais que eu“.

Carlos II ficou desolado, mas logo foi arranjado outro casamento, com Maria Ana de Neuburgo. Considerada potencialmente fértil — seus pais haviam tido 17 filhos — e com elos políticos anteriores na família, parecia a candidata ideal a gerar descendência para os Habsburgo.

Mas o matrimônio só confirmou a infertilidade de Carlos II quando ela também não engravidou. E pior: de temperamento forte, controlava e manipulava o marido, com ataques de raiva e episódios de gravidez imaginária. Tirava bens do palácio, como pinturas, e os mandava para parentes na Alemanha, enfurecendo a corte espanhola, além de falar sobre supostas sessões de “exorcismo” do marido — Carlos, a essa altura, era conhecido como “O Enfeitiçado“: suas mazelas seriam fruto de feitiços lançados por pessoas que o queriam fora do caminho. Até a Inquisição entrou na história para tentar livrá-lo das bruxarias. Claro que não deu certo.

Com a morte da mãe em 1696, Carlos II governou sozinho por 4 anos. Mariana queria que o sobrinho José Fernando da Baviera fosse nomeado sucessor, mas ele morreu em 1699, aos 6 anos. A saúde mental de Carlos vinha piorando, ao ponto de se tornar instável. Em certa ocasião, ordenou que os restos mortais de familiares fossem exumados só para vê-los. Sob a pressão para tirar o reino de dificuldades financeiras, teve um colapso nervoso e se afastou dos deveres políticos pouco antes de morrer, em 1700. Estava calvo, doente, muito mais envelhecido do que os 38 anos que tinha.

Em seu testamento, nomeou Filipe V, neto de Luís XIV da França, ao trono. Maria Ana foi ordenada a partir antes da chegada de Filipe V ao palácio.

Assim morreu o último dos Habsburgo na Espanha.

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