Lago Karachai: o lugar mais radioativo do mundo


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Lago lembra uma cena pacífica, de um dia ensolarado à beira de águas límpidas? No caso do Karachai, na Rússia, não seria recomendado um piquenique. Alvo de uma das mais vergonhosas ações humanas de destruição ambiental, segundo reportagem do Worldwatch Institute, é o lugar mais radioativo do mundo.

Perto dos Montes Urais (cordilheira na divisa com o Cazaquistão), o Karachai não tem canais para rios ou mar. A partir de 1951, o governo da então União Soviética aproveitou esse suposto isolamento para transformá-lo em ponto de descarte de lixo radioativo. Os dejetos vinham de Mayak, instalação nuclear nas imediações de Ozyorsk, cidade fundada em torno dela e então chamada Chelyabinsk-40.

Construída secretamente a partir de dezembro de 1945, Mayak foi crucial na conquista nuclear — ali foi manipulado urânio para o primeiro projeto soviético de arma atômica. As consequências, por outro lado, foram desastrosas, com uma longa lista de acidentes e milhares de vítimas irradiadas.

Corrida desenfreada

Em agosto de 1945, os Estados Unidos demonstraram poder lançando “Little Boy” e “Fat Man” sobre o Japão. As bombas atômicas encerraram a Segunda Guerra Mundial e exterminaram mais de 200 mil pessoas.

Cogumelo da RDS-1, primeiro teste nuclear soviético, em agosto de 1949. O caminho até ele foi tortuoso, com milhares de pessoas afetadas por radiação e grandes áreas poluídas por décadas.

Os soviéticos não podiam ficar atrás. Sob supervisão da NKVD, a missão era equilibrar a guerra tecnológica com os americanos — nascia a Guerra Fria. Assim que os primeiros funcionários chegaram a Mayak, em meados de 1946, os reatores foram otimizados para produção máxima.

O sistema de resfriamento pegava milhares de litros de água do Lago Kyzyltash, o maior da região, ao norte. Era um esquema de “ciclo aberto”, ou seja: a água simplesmente passava pelo sistema, acumulando radiação, e retornava à natureza. Simples assim.

Durante anos, longe dos olhos do mundo, os soviéticos não viram problema. O resultado estava sendo alcançado, e em 1949, testaram seu primeiro artefato nuclear, o RDS-1. Mayak logo passou também a reaproveitar material de usinas nucleares e armas desmontadas. Vários elementos radioativos como estrôncio-90 e césio-137 fluíam sem freio para o lago.

As autoridades perceberam o dano muito tarde. O Rio Techa, fonte de água para vários vilarejos, foi seriamente afetado, e represado para não levar radiação mais longe. Antes, milhares de habitantes em sua extensão (população estimada em 124 mil) foram expostos, já que o usavam para beber, regar plantações e saciar criações.

O Karachai, lago menor e mais próximo, foi visado. Sem comunicação com outros lagos ou rios, parecia perfeito para “guardar” material até que pudesse ser acondicionado de forma adequada. Mas níveis letais de radiação barraram o procedimento, e ele virou um simples despejo de grandes quantidades de lixo radioativo.

Em 1953, foram instalados tanques de aço no subsolo de Mayak, para reter o lixo. Receita para o desastre.

Desastre de Kyshtym

Em setembro de 1957, uma falha no resfriamento dos tanques causou uma grande explosão (química, não nuclear). Com força equivalente a 85 toneladas de TNT, mais de 70 toneladas de líquido radioativo se espalhou. A nuvem da explosão, também radioativa, foi levada pelo vento, resultando num corredor de quase 300 km de comprimento e 50 de largura. Cerca de 10 mil pessoas foram evacuadas de suas casas e 470 mil expostas à radiação.

Traço de contaminação. Note que vários lagos da região foram afetados.

Com a posterior mistura na atmosfera e chuvas, a zona afetada chegou a mais de 20 mil km². Quase mil km² foram declarados zona fechada no ano seguinte, e áreas já contaminadas foram re-contaminadas, como o Kyzyltash e o Techa. Todo o fluxo de radiação foi direcionado para o Karachai. Esperavam que dejetos ficassem no fundo por muito tempo, talvez “para sempre”.

Manter um lago mortífero só podia dar 💩, né?

Fortes chuvas fizeram o lago inundar, contaminando vários outros adjacentes. Já em 1967, uma severa seca fez o nível do lago baixar, expondo sedimentos. Uma nuvem de poeira radioativa subiu e se proliferou, atingindo parcialmente a cidade de Ozyorsk. Acredita-se que até 400 mil pessoas tenham sido afetadas.

O desastre é o terceiro mais grave da história, atrás só da explosão de Chernobil (1986) e do acidente em Fukushima (2011).

Sujeira escondida

Os soviéticos abafaram o caso. Para impedir aproximação humana, estabeleceram em 1968 a chamada “Reserva Natural Ural Oriental” — exatamente o corredor nuclear, hoje conhecido como EURT, de Eastern Ural Radioactive Trace (Traço Radioativo do Ural Oriental). Os americanos, através de sua agência de inteligência, sabiam de tudo desde 1959. Mas preferiram não revelar, temendo a reação de quem vivia próximo a usinas nos EUA.

Por mais de 45 anos, Mayak não pôde sequer ser visitada por estrangeiros. Só quando o presidente Boris Yeltsin assinou um decreto em 1992, abrindo a área aos ocidentais, cientistas tiveram acesso e entenderam a tragédia.

Sinal de alerta radioativo na margem do rio Techa: centenas de doentes entre moradores que consumiam ou mesmo se aproximavam da água. Imagem: Ecodefense

Moradores começaram a ser removidos um mês depois da explosão, sem saber o motivo — apenas que se tratava de uma contaminação. O Techa foi tão contaminado, que ao menos 65% dos habitantes desenvolveram doenças relacionadas à radiação. Médicos eram forçados a mascarar a causa nos diagnósticos, atestando apenas “doenças especiais”.

Vinte anos depois, a região apresentava aumento de 21% nos casos de câncer, 25% no de crianças com falhas genéticas e 41% nos de leucemia. Medições dos anos 90 demonstraram que aproximar-se do lago sem proteção exporia a vítima a mais de 526 rads. Uma hora na beira do lago é certeza de morte.

Exposição acima de 20 rads aumenta o risco de desenvolver câncer, e acima de 100 rads é potencialmente fatal. Para efeito de comparação, quatro vítimas do acidente com césio em Goiânia foram expostas a valores entre 400 e 600 rads, morrendo todas em até um mês. Outra vítima recebeu cerca de 700 rads, e morreu de câncer 8 anos depois.

O mais insano é que Mayak continuou ativa. Em 2005, o Ministério Público da Rússia abriu processo criminal contra Vitaly Sadovnikov, diretor da unidade desde 1999. Segundo promotores, entre 2001 e 2004, a empresa despejou ilegalmente no Karachai 60 milhões de m³ de resíduos radioativos. Mesmo sabendo da liberação na rede hidrográfica, não foram resolvidas as questões de segurança ambiental. O processo foi arquivado no ano seguinte devido à aposentadoria de Sadovnikov.

Pelo menos até 2002, o lago foi pouco ou nada modificado. Mas a partir de 2010, o governo russo parece ter sepultado o Karachai. Imagens: Google Earth.

Entre 1978 e 1986, foram despejados mais de 10 mil blocos de concreto oco no Karachai, para evitar que sedimentos letais reapareçam, mesmo numa seca. Pra piorar, descobriu-se que o lago não era tão isolado, e através do solo pantanoso, contaminava a região. Um bilhão de galões de água subterrânea teriam sido afetados.

Segundo o Departamento de Recursos Naturais da Região do Ural, no ano 2000, mais de 250 milhões de m³ de água contendo trítio, estrôncio e césio foram despejados no Techa. A concentração de trítio — um isótopo radioativo do hidrogênio — no rio, perto do vilarejo de Muslyumovo, ultrapassava o limite em 30 vezes. Os residentes começaram a ser movidos só em 2006; menos da metade foi de fato retirada.

Segundo o Greenpeace, cerca de 7 mil pessoas ainda viviam perto do rio até 2007. Muitos trabalhadores de Mayak no período crítico morreram por conta da exposição. Análise de pessoas que viveram ali nas décadas de 50 e 60 apontou 1842 vítimas fatais de tumores malignos e 61 de leucemia. Isso é quase 4 vezes mais que a média do país. Pelos cálculos, 2,5% dos casos de câncer e 63% de leucemia estavam diretamente associados à exposição à radiação ionizante.

A população local continua não sabendo os níveis de radiação absorvida pelo que plantam em seus quintais.

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