A história de um executor e porque ele mudou de ideia – Jerry Givens


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Entre 1982 e 1999, o americano Jerry Givens cumpriu seu papel. Levantava-se diariamente e seguia para o trabalho, na Penitenciária Greensville, na Virginia. Não era uma função comum: além de guarda, ele era executor. Givens operou as máquinas que levaram à morte 62 condenados.

Durante boa parte desses anos, nem mesmo sua família sabia o que fazia no presídio. As penas eram cumpridas inicialmente por eletrocussão, e mais tarde, injeção letal. Muitos anos depois, ao entender melhor como funcionava a justiça do país, Givens se tornaria contrário à pena de morte.

Givens em seu período como executor: cadeira elétrica foi usada até meados dos anos 90.

Em entrevista ao The Guardian, Givens contou detalhes de sua rotina, e como uma experiência pessoal o transformou em crítico do método que aplicou por 17 anos.

Poderia descrever como era o dia quando tinha que realizar uma execução?

No dia anterior, começávamos a chamada “vigília de morte” de 24 horas. Normalmente eu ficaria lá a partir das 9:00, e passaria a noite na instituição caso algo ocorresse. Tudo que acontece é registrado. Temos caras de segurança no “time da morte”, um grupo especial de pessoas que simplesmente mantém a segurança na câmara mortuária. Internos chegam ao Greensville, a instituição da câmara, 15 dias antes da data da execução.

Testávamos o equipamento com frequência, havendo execução programada ou não. Mas no dia da execução ou durante a semana, fazíamos todo tipo de teste. Treinávamos para o pior. Treinávamos para o homem que colocasse resistência. A maioria não colocava, mas às vezes as coisas podiam ficar rudes.

No dia da execução, eu podia quase prever se o condenado já tinha aceitado aquilo que o esperava ou não. Algumas pessoas estavam resignadas. Eu tentava ver se o interno estava nesse nível ou não. Se havia tensão no prédio, você podia sentir.

A maior parte do tempo, durante a execução, eu ficava atrás de uma divisória, de uma cortina com meu equipamento. Ficava sozinho como carrasco, mas tínhamos um time que acompanhava o interno e o colocava na maca ou cadeira, e o afivelava, e um médico que confirmaria a parada cardíaca.

Pode explicar a diferença entre os tipos de execução que realizava?

Quando comecei, era apenas morte por eletrocussão. Consistia de 2400 a 3000 volts; o condenado recebia 45 segundos de um choque em alta voltagem, e 45 no ciclo baixo. Levava cerca de 2 minutos e meio. Então havia um período de cinco minutos para o corpo esfriar, aí um médico entrava na sala com um estetoscópio para verificar se havia batimento cardíaco.

Lá pela metade dos anos 90, a Virginia decidiu usar a injeção letal. Aquilo consistia de sete tubos injetados no braço esquerdo. Três tubos de substâncias químicas e quatro de soro. Você administra o primeiro químico (tiopentato de sódio), então um soro, depois o segundo químico (brometo de pancurônio), outro soro, o terceiro químico (cloreto de potássio) e o último soro no final. É preciso tomar cuidado para que a pessoa que vai remover o corpo não seja exposta aos produtos químicos.

[Nota: as drogas são usadas para, em sequência, adormecer o condenado, paralisar a musculatura respiratória, e por fim o coração. O processo com as três drogas é chamado de Protocolo de Chapman, levando o sobrenome do médico que o desenvolveu. Se o condenado tiver problema cardíaco, vascular ou houver erro na aplicação, porém, o que duraria minutos pode se estender numa longa agonia.]

A sala da morte: injeção letal foi dominante a partir dos anos 90, mas ocasionalmente também falhava no propósito da execução indolor.

Se eu pudesse optar, escolheria a morte por eletrocussão. Era mais ou menos como um apagar e acender de luzes. Um botão que você aperta e as máquinas fazem o resto. Ela te alivia de se envolver naquilo, de certa forma. Você não pode ver a corrente elétrica através do corpo. Mas com as drogas, leva um tempo porque você lida com três drogas distintas. Você está na outra ponta com uma agulha na mão. Você vê a reação do corpo. Você vê cada componente correndo pelo tubo. E então o vê seguindo até entrar no braço e vê os efeitos dele. Você se envolve mais. Sei disso porque fiz. Morte por eletrocussão, de certa forma, parece mais humana.

O que o fez mudar de ideia sobre a pena de morte?

Não era algo que eu gostasse. Nunca apreciei nada daquilo. Quando aceitei o trabalho, não havia ninguém na fila de morte da Virginia. A pessoa tinha que ser muito burra para cometer o tipo de crime que poderia levá-la a morte. Era como se voluntariar ao suicídio. Nunca pensei que haveria quase 100 pessoas na fila da morte. Não tinha ideia de que executaria 62 pessoas. Não sabia nada disso quando assinei os papéis.

Givens: antes executor, depois defensor do fim da pena de morte. “Você não pode tirar a vida de uma pessoa e ir pra casa ser normal”.

Mesmo quando eu estava no trabalho, sempre me perguntava o que poderia fazer para evitar que esses caras acabassem ali. Costumava trazer crianças de escolas. Permitia que as crianças se sentassem na cadeira e explicava que queria vê-las educadas, longe da violência, ou elas acabariam ali.

Sei que isso ajudou. Costumava receber cartas. Elas escreviam de volta dizendo obrigado por colocá-las na direção certa. Nunca entendi porque gastávamos dinheiro com a pena de morte em vez de investir para prevenir aquelas pessoas de entrarem no sistema, pra começo de conversa.

Eu honestamente acredito que Deus interferiu e me disse que bastava. Fui convocado a falar diante do grande júri. Para encurtar a história, o júri disse que eu estava envolvido em lavagem de dinheiro e perjúrio por comprar carros de um amigo que obteve o dinheiro ilegamente. Eu disse a eles que pensei estar tudo resolvido. Mas fui condenado a 57 meses numa instituição federal.

Soube então que o sistema não era direito. Não tive um julgamento justo, e percebi que talvez algumas pessoas que executei também não tenham tido um julgamento justo.

Que tipo de treinamento você precisou para ser um executor?

Foi complicado pra mim. Quando fui perguntado, a fila da morte estava vazia no estado. Pensei comigo mesmo, não concordei, mas iria pensar. Então, depois da primeira execução em que assisti, em 1982, o cara que fazia ficou doente. Ele simplesmente parou e se aposentou. E fiquei no lugar dele. Tivemos tantas execuções tão próximas. Após aquela, fiz a primeira sozinho em 1984. Sempre disse a mim mesmo que quando chegasse a 100, eu pararia. Fico feliz de nunca ter chegado tão longe.

Acho que eu tinha uma reputação no sistema prisional. Eu colocava minha vida em jogo por vários internos e pessoas. Eu encarava e até lutava de mãos limpas para tentar interromper a violência. Fiz meu trabalho. Via isso como salvar a vida de pessoas, parar a violência. Num dia eu estava salvando pessoas. No outro, tirando vidas. Tive que me transformar em alguém que tirava a vida de outra pessoa. Não é uma tarefa muito fácil.

Quando aceitei o trabalho, jamais disse a minha esposa ou filhos, ou qualquer um. Não queria que eles passassem por nada que eu tinha que enfrentar. Se eu contasse a alguém, seria como uma bola de neve ficando maior e maior e maior, e todos saberiam exatamente o que eu estava fazendo

Qual era seu salário anual no presídio? Recebia pagamento extra pelas execuções?

Recebíamos entre 39 e 50 mil dólares. Dependia da folha de pagamento em que você estava como oficial correcional. Quando saí, estava perto de 50 mil. Tínhamos benefícios, mas não recebia adicional como executor. Às vezes, acho que se não tivesse sido selecionado como o executor, talvez tivesse trabalhado meus 27 anos sem problemas e então me aposentado. Mas quando fui forçado a sair, tudo foi embora. Perdi minha pensão.

Se eu soubesse o que passaria como executor, não teria feito. Você não pode tirar a vida de uma pessoa e ir pra casa ser normal.

Qual o maior erro que cometeu enquanto trabalhava?

O maior erro que cometi foi aceitar o emprego de executor. A vida é curta. A vida consiste só de 24 horas por dia. A morte está vindo para nos pegar. Não temos que matar uns aos outros.

Em seus anos servindo ao estado da Virginia, Givens executou criminosos terríveis como os irmãos Briley (psicopatas que mataram 11 pessoas no fim dos anos 70), na cadeira elétrica. Mesmo com o histórico dos condenados, ele lembra sem sentimento de prazer ou revanche. “Foi difícil, seria mentira se eu dissesse que não. Quero dizer, esse cara não fez nada contra mim, não é como se eu estivesse numa vingança. Estava só fazendo o que o estado da Virginia queria”.

Também descreveu o ambiente horrível da sala, com o detalhe mórbido do cheiro. “Quando havia uma execução, ficava um cheiro de carne queimada, e se você tivesse bigode, poderia sentir o cheiro nele. Então você tinha que se lavar muito bem, sabe, para tirar aquilo. Talvez seja psicológico, mas você continuava sentindo aquele cheiro, um cheiro gorduroso”.

Givens destaca o caso de Earl Washington Jr. como exemplo das falhas do sistema. Acusado de estupro e assassinato, Washington tinha a execução marcada para 1985. Mas outro detento percebeu que, por ser deficiente mental (QI estimado em 69), havia sido forçado pela polícia a confessar os crimes. Advogados voluntários conseguiram um exame de DNA — então novidade — e provar que Washington não podia ser ligado ao crime. Como o estado tinha restrições quanto a provas obtidas após o processo, o governador interveio e comutou a pena em prisão perpétua. Só em 2000, com exames de DNA ainda mais conclusivos, o prisioneiro foi libertado, com anulação da pena e o reconhecimento estadual pelo erro. “Não fosse o exame de DNA, nós o teríamos matado”.

“Se você é um executor e aprecia o que está fazendo, então não devia estar nessa posição”.

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