Champawat: o tigre que devorou mais de 400 pessoas


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O contato entre vida selvagem e civilização geralmente não termina bem como nos filmes. O menino que se perde em áreas remotas, e acaba abraçado ao urso, amigo do leão? Esqueça, o melhor que pode acontecer é você ser ignorado. O pior, ser visto como uma comida — estranha, mas comida.

Desses choques, às vezes inevitáveis, nascem feras sobrenaturais comedoras de humanos, comuns em todas as culturas. Lobisomem na Grécia Antiga, Chupa-cabras na América Central, Morcego Gigante de Java, Anacondas de trinta metros: quase todos emergindo do medo e das histórias de tragédias, passadas entre gerações.

No início do século XX, um animal aterrorizou os territórios de Índia e Nepal. Mas esse não tinha nada de lenda. O Tigre de Champawat, como ficou conhecida a tigresa, matou (e na maioria dos casos, comeu) 436 pessoas. Pelo menos oficialmente, já que o número real pode ter sido muito maior.

A jornada sanguinária deixou ao tigre-de-bengala outro apelido na história: A Devoradora de Humanos.

Caminho sangrento

Jim Corbett

A matança começou no fim do século XIX, no Nepal. Grupos de exploradores eram atacados por um tigre, o que nunca foi exatamente incomum na região.

Mas dezenas morriam a cada investida. Caçadores tentaram abatê-lo, sem sucesso: ele parecia excepcionalmente feroz e ágil. Nos vilarejos, o clima era de terror. Renegando o comportamento padrão de sua espécie, o tigre não hesitava em invadir cabanas e se exibir.

A gravidade da situação fez o exército nepalês entrar em ação. Mas nem eles puderam matar o animal, conseguindo apenas expulsá-lo de seu território. A essa altura, mais de 200 pessoas tinham sido devoradas.

A fera fugiu rumo ao oeste, fazendo vítimas no país vizinho, a Índia. Anos se passaram, enquanto a tigresa crescia e se tornava mais feroz e sem limites. Seu rugido vindo da floresta era ouvido à grandes distâncias, espalhando pavor. Recompensas foram oferecidas, grupos de caçada organizados, mas ninguém a detinha.

É quando surge o inglês Jim Corbett. Patenteado do Exército da Índia Britânica, com experiência em caçadas, Corbett se especializara em felinos “devoradores de humanos”.

Foi durante visita a Nainital que ele soube do caso. Tudo foi registrado em seu livro “Os Assassinos de Kumaon” (The Man-Eaters of Kumaon, 1948, ISBN-13: 9780195622553, Companhia Editora Nacional):

“A tigresa, animal em que havia se convertido, chegou a Kumaon como uma experiente devoradora de homens. Vinha do Nepal, afugentada por um corpo de soldados nepaleses após matar quase duzentos humanos. Durante os quatro anos operante em Kumaon, ela adicionou duzentos e trinta e quatro a este número.

É assim que as coisas estavam quando, pouco após chegar à Nainital, recebi a visita de Berthoud. Era subdelegado […], um homem amado e respeitado pelo que sabia. Ao me contar dos problemas que a devoradora trazia aos moradores do distrito, e da ansiedade que estava lhe causando, ele partiu com minha promessa de que começaria a caçar assim que recebesse notícias do próximo alvo humano.

Só deixei duas condições. Uma, que o governo cancelasse a recompensa. Outra, que shikaris especiais e regulares de Almora fossem afastados. Minhas razões para tais condições não precisam de explicação; tenho certeza que todo bom esportista concorda com minha aversão em ser classificado como caçador de recompensas, e anseiam tanto quanto evitar o risco de ser acidentalmente baleado.

As condições foram logo atendidas, e Berthoud visitou-me pela manhã, com notícias sobre uma mulher morta pela devoradora em Pali, vilarejo entre Dabidhura e Dhunaghat.”

Isso em 1907. A vítima era uma moça de 16 anos, que havia saído para apanhar lenha. Corbett partiu com um grupo de seis assistentes, numa caminhada de 27 km até o vilarejo extremamente isolado — levaram cinco dias.

Todos estavam trancados em suas cabanas desde o ataque. “As pessoas do vilarejo, em torno de 50 homens, mulheres e crianças, estavam em estado de abjeto terror. Embora fosse dia quando cheguei, encontrei toda a população dentro de suas casas, com portas bloquadas“. Só com disparos para o ar, os moradores começaram a aparecer, desconfiados.

Fui informado que nos últimos cinco dias, ninguém passava das soleiras de suas portas. A condição precária local era confirmada pela pouca quantidade de alimentos disponíveis. As pessoas passariam fome se o tigre não fosse morto ou movido para longe“, explicou Corbett em seus registros.

Caçador vira caça

Tigre-de-bengala após caçada, no Parque Nacional Ranthambore, na Índia. Foto: Rhaessner, GPL

Por três noites, o tigre foi visto a menos de cem metros das casas, e durante o dia, perto das plantações. Corbett, explorando a área, encontrou o ponto do ataque. A moça havia sido surpreendida numa árvore, de onde recolhia galhos. Havia restos de pele e um pouco de sangue no tronco áspero — ela foi arrastada, antes de descer.

Como a tradição local é cremar os mortos, qualquer resto da vítima importava. Seguindo as poucas marcas de patas visíveis, encontrou uma trilha de sangue seco levando ao local em que ela havia sido quase totalmente devorada, até a cabeça. Restaram poucos ossos em pedaços, e roupas ensanguentadas, tudo cremado pela família e jogado no Rio Ganges.

Corbett e equipe visitaram outro vilarejo com vítimas recentes, uma menina. A irmã mais velha presenciou o ataque e perseguiu o animal, tentando salvá-la. O trauma foi tão severo que ela não conseguia mais falar. Era surpreendente porque a tigresa “tinha a reputação de nunca matar duas vezes no mesmo lugar, nunca retornar ao lugar em que matou, e ter domínios que se estendiam por várias centenas de km²“. Tal comportamento anômalo reduzia sua busca a algo como “procurar uma agulha no palheiro“.

Por três dias, eles vaguearam pela floresta, mas a fera parecia ter partido das imediações. Decidiram seguir para Champawat, a 24 km.

Habitantes do Sundarbans se previnem usando máscaras viradas para trás – tigres não costumam atacar se a presa estiver de frente. Os animais são ferozes nessa região, tanto em terra quando na água — entre 50 e 60 pessoas morriam por ano antes do uso da máscara ser difundido. O número caiu para 3 ou 4 desde então. Foto: Peter Jackson

O tigre fora visto carregando uma mulher seminua e agonizante cerca de dois meses antes. Homens só circulavam em grupos, para atividades imprescindíveis. Durante sua estada, outra garota foi arrastada para o mato. A tigresa atacou mesmo com a população reunida, aproximando-se sem ser vista por 12 pessoas e pegando a moça, que também recolhia lenha.

Comportamento imprevisível: tigres são considerados traiçoeiros e até covardes, preferindo atacar presas solitárias. Na Índia e países vizinhos, agricultores e pescadores usam máscaras viradas para trás: um olhar direto pode evitar a aproximação do felino. Experiências na Índia mostraram até tigres seguindo pessoas sem atacá-las, enganados pelo truque.

Corbett e grupo seguiram um rastro de sangue vivo, encontrando peças de roupa e partes do corpo ainda fresco:

Em todos os meus anos seguintes como caçador de devoradores, nunca vi algo tão lamentável quanto aquela perna jovem arrancada um pouco abaixo do joelho, separada com a precisão de um corte de machado e ainda escorrendo um sangue morno.

A tigresa ia pouco à frente, carregando o cadáver enquanto ocasionalmente parava para comer. Corbett a seguiu, o mais perto que um caçador havia chegado. Foram quatro horas de perseguição, até que a noite o impediu de continuar. Mas sabia onde encontrá-la, ao menos pelas próximas horas.

De volta ao acampamento, convenceu os locais a formar um grupo para ajudá-lo. Apesar do medo inicial, foram reunidos 298 homens. A autoridade deu anistia temporária a todo armamento, mesmo de origem ilegal, e ainda forneceu munição para a empreitada. O plano era colocá-los numa posição lateral à da tigresa, e fazendo barulho, obrigá-la a sair da toca para ser alvejada pelo inglês.

Enquanto subia silenciosamente o caminho íngreme em direção à toca, veio o inesperado. Os homens se precipitaram e começaram o ruído antes do combinado, disparando armas, batendo tambores e gritando. Corbett deitou-se entre arbustos baixos, torcendo para não ser visto, quando a tigresa sobressaltada surgiu no alto do morro. Seu único acompanhante até ali, um tahsildar (funcionário do governo da Índia) disparou, mas ela deu meia-volta e começava a escapar — se fugisse, mais pessoas morreriam. Corbett fez um disparo quase às cegas, enxergando só o alto de suas costas.

Em vez de cair ou fugir na direção do grupo ruidoso, ela voltou pelo meio do mato, ressurgindo ameaçadora, à direita do caçador. Corbett fez outro disparo, esse provavelmente o fatal. A fera ferida desistiu do ataque; muito lentamente, deu meia-volta, atravessando um riacho e subindo um barranco, onde caiu sobre um pequeno arbusto. O inglês a seguiu e fez um terceiro disparo, errando a cabeça e acertando sua pata.

Mas ela já agonizava. Era o fim do pesadelo.

Cabeça do Tigre de Champawat. É possível ver a falta do canino inferior direito, e o tamanho reduzido do superior direito.

O grupo se aproximou ao ouvir os disparos, gritando de felicidade por deduzir o desfecho. Muitos carregavam espadas e facas, e queriam destrinchar o tigre ali mesmo. Alguns haviam perdido filhos, esposas e amigos; havia um forte sentimento de revanche. Mas chegaram ao consenso de levá-lo para o vilarejo. “Diziam que se mulheres e crianças não vissem com seus próprios olhos, não acreditariam que o terrível inimigo estava morto“.

No caminho, localizaram restos de vítimas, como montes de cabelo e a cabeça da última vítima. Noite adentro, a fera foi esfolada, picada, e pedaços dados aos moradores. Alguns viraram talismãs, como colares, supostamente para protegê-los de outras feras. Os dedos da vítima final ainda estavam no estômago da tigresa, sendo recuperados, queimados e as cinzas jogadas no rio.

Pele e cabeça ficaram com Corbett, que fez questão de voltar ao vilarejo de Pali, para exibi-los à jovem muda:

Não quero lançar teorias sobre choque e contra-choque. Só sei que aquela mulher, alegadamente muda por 12 meses, e que quatro dias antes nem tentava responder minhas perguntas, agora corria de um lado a outro, chamando o marido e as pessoas da vila, que rapidamente vinham ver o que o ‘sahib’ havia trazido. Essa súbita volta da fala deslumbrava as crianças, que não tiravam os olhos do rosto da mãe.

Descansei na vila enquanto me preparavam um chá, e contei ao povo sobre como havia matado a devoradora de homens. Uma hora depois, segui minha jornada, e por quase um quilômetro, ainda ouvia os desejos de boa sorte dos moradores de Pali.

Preservação

O caçador constatou que caninos do tigre estavam quebrados — o superior direito pela metade, e o inferior direito, logo ao sair da mandíbula. Resultado de um tiro na boca, muitos anos antes, que pode ter sido o gatilho: impossibilitada de caçar presas naturais, sua opção foi pelos frágeis humanos.

Corbett registrou memórias em seu livro de 1944, adaptado para o cinema em 1948 (“A Fera de Kumaon”, dirigido por Byron Haskin). Ele mataria outros grandes devoradores de humanos, entre eles:

  • Tigre de Chowgarh: na verdade, uma tigresa e o filhote quase adulto; 64 vítimas fatais.
  • Leopardo de Panar: caçado três anos depois de Champawat, deixou cerca de 400 mortos.
  • Devorador de Thak: tigresa que comeu quatro pessoas.
  • Leopardo de Rudraprayag: morto em 1926, o felino matou cerca de 125.

Segundo suas cálculos, os animais que abateu mataram, juntos, mais de 1200 pessoas.

Mais tarde, Corbett se tornaria ativista ambiental. Escreveu e deu palestras sobre a importância de preservar habitats para evitar tais choques. Ele desenvolveu gosto pela fotografia nos anos 20, escolhendo tigres como assunto favorito. Foi também um dos fundadores do Parque Nacional Hailey, o primeiro da Índia (que em 1957, seria renomeado em sua homenagem).

Nos últimos anos de vida, mudou-se para o Quênia, onde continuou ativo no trabalho de conscientização e preservação da vida selvagem. Uma das cinco espécies de tigre ainda existentes foi nomeada Panthera tigris corbetti, o Tigre de Corbett ou Tigre da Indochina — ameaçado de extinção.

Casos similares continuam na Índia, Bangladesh, Nepal, Vietnã e outros países asiáticos. O crescimento demográfico reduz o espaço deles, que perderam mais de 90% do habitat original.

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