Breve “estudo de caso” da intolerância religiosa em redes sociais


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No último dia 27, a página no Facebook do Jornal Extra publicou nota de falecimento da mãe-de-santo, escritora e ativista Mãe Beata de Iemanjá, aos 86 anos, no Rio de Janeiro.

Mais que figura religiosa, a baiana nascida Beatriz Moreira Costa foi atuante em várias frentes humanitárias. Além do trabalho social no terreiro Ilê Omiojuarô, foi presidente da ONG Criola, na luta contra sexismo, machismo, violência contra a mulher e preconceito racial. Participou de inúmeros eventos ligados a causas sociais, recebendo condecorações e homenagens como:

  • menção honrosa pela militância e resistência da Cultura, Religião, Cidadania e Dignidade da População Afro-Brasileira, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro;
  • diploma de Personalidade de Destaque da Comunidade Negra, no mandato do deputado estadual Marcelo Dias (RJ);
  • diploma de Honra ao Mérito da prefeitura do Município de Belford Roxo;
  • homenagem na 5ª Bienal de Arte, Ciência e Cultura da União Nacional dos Estudantes;
  • prêmio Mulher Cidadã Bertha Lutz do Senado Federal;
  • prêmio de Direitos Humanos conferido pelo Programa Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República;
  • prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade do IPHAN;

etc…

Mas nas redes sociais, tudo isso foi reduzido a um rótulo: “macumbeira“.

Nenhum espanto. Estigma sobre religiões no Brasil, especialmente de raízes africanas, é mais que “normal”, inclusive pela boca dos mesmos que se horrorizam com profanação de crucifixos e santos católicos.

Só que redes sociais, além da imundície que circulam por quem mal sabe se comportar na sociedade “física”, que dirá na digital, servem pra algo: mostrar um reflexo autêntico (de parte) da coletividade. Sem meias-palavras — talvez pela sensação de segurança por discursar de dentro de casa para o mundo. Com todo o tempo para pensar, escrever e até apagar o que escreveu, muitos seguem firmes com opiniões que não ousariam dar na “vida real”.

Como esse comentário:

Pra quem pensou “é montagem”, visite a página do Extra; a postagem é do dia 27/05/2017. Nomes e rostos foram ocultados por privacidade (se bem que o post é público, mas vamos evitar a fadiga…).

 

Até o momento em que este post é escrito, o comentário havia despertado mais de 180 reações, a imensa maioria 😡. Recebeu também centenas de respostas, quase todas condenando tamanha demonstração de desumanidade. Claro que pode ser um fake de adolescente ou tiozão entediado em busca de emoções. O fenômeno é manjado, alimentando páginas especializadas nas barbaridades, na linha “pérolas do G1”.

Pode ser, mas fica irrelevante diante do fato de que mais de 20% das reações são risadas. Uma examinada rápida e a gente constata que quase todos são perfis reais. Gente que apoia ou vê graça na frase, seja ela de um troll ou não.

Mas você é muito negativo, mais de 60% são pessoas zangadas“.

Verdade. Mas não parece pessimismo ver algo capenga na sociedade quando 20% de uma amostra (fora os que apoiam mas não se revelam) seguem tal linha sobre a morte de alguém que quis fazer o bem a vida toda. Goste você ou não do que ela fazia, siga a religião dela ou não, nem é passível de discussão.

Qual a graça?

Que diabos leva pessoas com vidas absolutamente normais, famílias amorosas, relacionamentos sociais e realizações, a achar graça na intolerância? Não resisti e fui examinar o perfil dos que acharam graça. Não para massacrar ou julgar personalidades; identidades não são reveladas, não tem importância. Só tentar entender o porquê, como essas opiniões se formam.

Pretensão? Claro. Mas a curiosidade segue.

Mulher, 30 anos.
Poucos posts públicos. Várias demonstrações de afeto ao marido. Cartões e mensagens fofinhas.

Homem, 25.
Militar. Pesar pela tragédia da Chapecoense. Meme sobre a política. Mensagem sobre Jesus.

Homem, 40.
Mensagens e imagens sobre afeto familiar. Frase “Deus continua o mesmo sem nós. E nós sem ele?“. Muitos posts com passagens bíblicas.

Mulher, 40.
Muitas demonstrações de afeto à família (filha, mãe e irmão). Inúmeras imagens com frases sobre Deus.

Homem, 25.
Crítica à Maria do Rosário e apoio à Danilo Gentili, que esfregou notificação da Procuradoria Parlamentar nas partes íntimas e mostrou a palavra “puta” em referência à deputada do PT. Meme pedindo que a mulher seja exemplar antes de exigir algo do homem. Frase “Namore alguém que queira buscar a Cristo“.

Homem, 50.
Pouco público, mas demonstra ter orgulho da família.

Homem, 35.
Destaque para muitas imagens com os filhos. Meme sobre planejamento familiar com o tema “Se você é pobre, não tenha filhos“. Post sobre o Papa Francisco. Post sobre o Estado Islâmico que “crucifica cristãos diariamente“.

Mulher, 23.
Intro diz “O Senhor é meu pastor e nada me faltará“. Muitas postagens sobre religião.

Homem, 28.
Muitas imagens sobre família e amizade. Foto dentro de um templo, com o altar ao fundo.

Mulher, 18.
Nenhuma informação pública, só foto de perfil.

Mulher, 35.
Pouco informação pública, mas muitas fotos de momentos em família. Possivelmente enfermeira.

Homem, 30.
Frases de apoio à Sérgio Moro e críticas à Maria do Rosário e Dilma Roussef. #BOLSONAROPRESIDENTE e memes sobre Lula. Compartilha vídeo de um homem reagindo com extrema violência à agressão de uma lésbica (a quem se refere como “sapatona”), com risadas.

Mulher, 28.
Muitas imagens de família, com filhos, marido, parentes. Meme que critica o Estatuto da Criança por defender marginais menores. Apoio à redução da maioridade penal, com a frase “da justiça divina ninguém pode fugir, nem essas ‘crianças’“.

Mulher, 20.
Curte e compartilha posts da página “Moça, não sou obrigada a ser feminista“. Post sobre um pastor dando dicas de relacionamento no programa Raul Gil. Críticas ao “esquerdismo” e sua “vulgaridade”.

Homem, 20.
Imagens de sobrinhos. Um vídeo do mesmo pastor compartilhado pela usuária anterior, um certo Pastor Cláudio. Post defendendo que um “mulherão” de verdade “se veste com respeito” e “descarta amizades desnecessárias”.

Homem, 35.
Post “A maldade não deve ser devolvida, deixe para a vida cobrar“. Críticas ao atual governo e aos anteriores (PT). Meme sobre suposta semelhança entre críticos do muro de Donald Trump e socialistas.

Homem, 25.
Muitas imagens sobre artes marciais. Post apoiando punição a quem bebe e dirige. Muitos posts em apoio a Jair Bolsonaro.

Homem, 30.
Mora na América do Norte (Canadá ou EUA). Muitas fotos e vídeos de animais fofinhos.

Mulher, 25.
Posts privados, o único público é pedindo doações de sangue.

O que quero provar? Nada. Mas o que se extrai disso tudo?

São pessoas com entes queridos, que praticam esportes, viajam, trabalham, tem valores morais, religião. Minha intenção não é atacar ideologia X ou Y. É notar como os mesmos que pedem respeito, que falam sobre dignidade, deuses e família, não querem ou conseguem respeitar o diferente, mesmo com tanto em comum com àqueles que atacam.

Claro que não é um estudo de caso de verdade. Não sou cientista social. Os dados são poucos pra fornecer um material decente de análise. Mas dá pra dormir bem com isso, especialmente você que tem filhos?

O reconforto é saber que apesar de insubstituíveis, pessoas como a Mãe Beata continuam por aí.

Essas guerras todas… Muitas você vê que são por questão religiosa, e pela questão do dinheiro. Nosso Pai, o criador, Olorum, não nos mandou para isso, nos mandou para uma experiência do que é a bondade, do que é o acolhimento“.

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